11. Formulário — Fórmulas Utilizadas (formato acadêmico)
Cada fórmula é acompanhada do seu conceito (o que é e para que serve) e do referencial teórico. Os símbolos seguem a notação acadêmica usual.
11.1. Avaliação por Regressão Linear Múltipla (MRLM)
Modelo / equação estimada
ŷ = β0 + β1x1 + β2x2 + ⋯ + βkxk
Conceito. É a equação de avaliação propriamente dita: expressa o valor do imóvel (variável dependente) como uma combinação linear dos seus atributos (área, dormitórios, localização etc.). Cada coeficiente βⱼ mede, isoladamente, quanto cada atributo contribui para o valor, mantidos os demais constantes. É a materialização do Método Comparativo Direto de Dados de Mercado tratado por inferência estatística.
onde: ŷ = valor estimado; βⱼ = coeficientes; xⱼ = variáveis independentes; k = nº de variáveis.
Como interpretar. Leia o sinal e a magnitude de cada βⱼ: positivo valoriza, negativo desvaloriza; aplique os valores do avaliando na equação para obter ŷ. Em modelos com log, o efeito é percentual, não absoluto.
Referência. DANTAS, R. A. Engenharia de Avaliações, 3. ed., Pini, 2012; ABNT NBR 14.653-2:2011 (Anexo A — tratamento científico); GUJARATI & PORTER, Econometria Básica, 5. ed., 2011.
Estimadores por Mínimos Quadrados Ordinários (OLS)
β̂ = (XTX)−1XTy
Conceito. É o procedimento que calcula os coeficientes do modelo. O método dos Mínimos Quadrados Ordinários escolhe os β̂ que tornam mínima a soma dos quadrados dos resíduos (diferenças entre valores observados e previstos), produzindo a 'melhor reta' de ajuste. Sob as hipóteses clássicas (linearidade, exogeneidade, homocedasticidade, normalidade e ausência de multicolinearidade), os estimadores OLS são os de menor variância entre os não-viesados (Teorema de Gauss-Markov).
onde: X = matriz das variáveis; y = vetor de respostas; β̂ = vetor de coeficientes estimados.
Como interpretar. Não se interpreta diretamente — é o cálculo dos coeficientes. Confie nos resultados apenas se os pressupostos (itens 11.2) forem atendidos.
Referência. GAUSS, C. F. (1809) / MARKOV; GUJARATI & PORTER, Econometria Básica, 2011; MONTGOMERY, PECK & VINING, Introduction to Linear Regression Analysis, 5. ed., Wiley, 2012.
Coeficiente de determinação (R², R²aj)
R2 = 1 − SQres/SQtot R2aj = 1 − (1−R2)(n−1)/(n−k−1)
Conceito. Mede o poder de explicação do modelo: a proporção da variabilidade do valor que é explicada pelos atributos. O R² ajustado penaliza a inclusão de variáveis irrelevantes, sendo o indicador preferido para comparar modelos com números diferentes de variáveis. É um dos critérios do enquadramento do Grau de Fundamentação.
onde: SQres = soma de quadrados dos resíduos; SQtot = soma total; n = amostras; k = variáveis.
Como interpretar. Quanto mais próximo de 1, melhor o ajuste. Use sempre o R² ajustado; valores muito altos com poucas amostras podem indicar superajuste.
Referência. MONTGOMERY, PECK & VINING (2012); DRAPER & SMITH, Applied Regression Analysis, 3. ed., Wiley, 1998.
Análise de Variância (ANOVA) — teste F
F = QMreg/QMres
Conceito. Testa a significância global do modelo, isto é, se o conjunto das variáveis tem poder explicativo real. Decompõe a variabilidade total em parcela explicada pela regressão e parcela residual; um valor de F com p baixo (ex.: p < 0,01) indica que o modelo é estatisticamente significante. É critério do Grau de Fundamentação (NBR 14.653-2, Tabela 1).
onde: QMreg = quadrado médio da regressão; QMres = quadrado médio residual.
Como interpretar. Se o p-valor de F for baixo (ex.: < 0,01), o modelo como um todo é significante. p alto indica que o conjunto de variáveis não explica o valor.
Referência. FISHER, R. A. Statistical Methods for Research Workers, Oliver & Boyd, 1925; ABNT NBR 14.653-2:2011.
Significância dos coeficientes — estatística t
tj = β̂j/EP(β̂j)
Conceito. Avalia se cada variável, individualmente, é significativa para explicar o valor. Compara o coeficiente estimado com seu erro-padrão; quanto maior |t| (e menor o p-valor), mais confiável é a contribuição daquela variável. A NBR 14.653-2 exige níveis máximos de significância por variável conforme o Grau de Fundamentação.
onde: β̂ⱼ = coeficiente estimado; EP = erro-padrão do coeficiente.
Como interpretar. Quanto menor o p-valor de cada variável, mais confiável seu efeito. Variáveis com p alto (ex.: > 0,30) devem, em regra, ser retiradas do modelo.
Referência. GUJARATI & PORTER (2011); ABNT NBR 14.653-2:2011 (Tabela 1).
Intervalo de confiança / predição (80%)
IC80% = ŷ0 ± tα/2;n−k−1·σ̂·√(x0T(XTX)−1x0)
Conceito. Quantifica a incerteza da estimativa: delimita a faixa dentro da qual o valor do imóvel deve estar, com 80% de confiança. Sua amplitude relativa define o Grau de Precisão da avaliação (NBR 14.653-2, Tabela 3). Não confundir com o Campo de Arbítrio, de natureza não estatística.
onde: σ̂ = desvio-padrão da regressão; x₀ = vetor do avaliando; α = 0,20.
Como interpretar. O valor do imóvel deve estar dentro da faixa com 80% de confiança. Quanto mais estreita a amplitude relativa, maior o Grau de Precisão.
Referência. ABNT NBR 14.653-2:2011; HOCHHEIM, N. Engenharia de Avaliações Imobiliárias, IBAPE/SC, 2015.
Resíduo e resíduo padronizado
ei = yi − ŷi e*i = ei/(σ̂√(1−hi))
Conceito. O resíduo é o 'erro' do modelo em cada amostra (o quanto o previsto difere do observado). Os resíduos padronizados (escala comparável) são a base de quase todos os diagnósticos: normalidade, homocedasticidade e detecção de pontos atípicos. Resíduos relativos acima de ±30% devem ser justificados no laudo.
onde: yᵢ = observado; ŷᵢ = estimado; hᵢ = alavancagem; σ̂ = desvio-padrão da regressão.
Como interpretar. Resíduos pequenos e sem padrão indicam bom ajuste. Resíduos relativos acima de ±30% devem ser justificados; padronizados além de ±2 a ±3 sinalizam possíveis outliers.
Referência. MONTGOMERY, PECK & VINING (2012); ABNT NBR 14.653-2:2011.
11.2. Diagnósticos estatísticos (pressupostos do modelo)
Normalidade dos resíduos — Jarque-Bera
JB = (n/6)(S2 + (K−3)2/4) ~ χ2(2)
Conceito. Verifica se os resíduos seguem distribuição normal, pressuposto necessário para a validade dos testes t e F e dos intervalos de confiança. Baseia-se na assimetria (S) e na curtose (K) dos resíduos. Aceita-se a normalidade quando p > 0,05.
onde: S = assimetria; K = curtose; n = nº de amostras.
Como interpretar. Aceita-se a normalidade quando p > 0,05. p baixo indica resíduos não-normais, exigindo revisão (transformações, remoção de outliers).
Referência. JARQUE, C. M.; BERA, A. K. Economics Letters, v. 6, 1980 (doi.org/10.1016/0165-1765(80)90024-5).
Normalidade dos resíduos — Shapiro-Wilk
W = (Σaix(i))2/Σ(xi−x̄)2
Conceito. Teste de normalidade mais potente para amostras pequenas e médias. Compara as estatísticas de ordem dos resíduos com os valores esperados sob normalidade; W próximo de 1 indica aderência à normal. Complementa o Jarque-Bera.
onde: x₍ᵢ₎ = resíduos ordenados; aᵢ = coeficientes tabelados; x̄ = média.
Como interpretar. W próximo de 1 e p > 0,05 indicam normalidade. Preferível ao Jarque-Bera em amostras menores.
Referência. SHAPIRO, S. S.; WILK, M. B. Biometrika, v. 52, 1965.
Homocedasticidade — Breusch-Pagan
LM = n·R2aux ~ χ2(k)
Conceito. Verifica se a variância dos resíduos é constante ao longo dos valores estimados (homocedasticidade). A heterocedasticidade não enviesa os coeficientes, mas compromete os erros-padrão e, portanto, a inferência (testes e intervalos). Aceita-se homocedasticidade quando p > 0,05.
onde: R²aux = R² da regressão auxiliar dos resíduos² sobre as variáveis; n = amostras.
Como interpretar. p > 0,05 indica variância constante (desejável). p baixo indica heterocedasticidade — os erros-padrão e a inferência ficam comprometidos.
Referência. BREUSCH, T. S.; PAGAN, A. R. Econometrica, v. 47, 1979 (doi.org/10.2307/1911963).
Autocorrelação — Durbin-Watson
DW = Σi=2n(ei−ei−1)2/Σei2
Conceito. Detecta correlação serial entre resíduos consecutivos, que viola a hipótese de independência dos erros. Valores próximos de 2 indicam ausência de autocorrelação; afastamentos sugerem dependência (relevante quando há ordenação espacial/temporal das amostras). Faixa aceitável adotada: 1,5 a 2,5.
onde: eᵢ = resíduo da observação i; n = nº de amostras.
Como interpretar. DW entre 1,5 e 2,5 é aceitável; próximo de 2 é o ideal. Abaixo de 1,5 sugere autocorrelação positiva; acima de 2,5, negativa.
Referência. DURBIN, J.; WATSON, G. S. Biometrika, v. 37, 1950 (doi.org/10.1093/biomet/37.3-4.409).
Multicolinearidade — Fator de Inflação da Variância (VIF)
VIFj = 1/(1−Rj2)
Conceito. Mede a redundância entre as variáveis explicativas. Quando duas variáveis 'carregam a mesma informação', os coeficientes ficam instáveis e de difícil interpretação. VIF acima de 5 (alguns autores, 10) indica multicolinearidade preocupante, sinalizada pelo sistema.
onde: Rⱼ² = R² da regressão de xⱼ sobre as demais variáveis.
Como interpretar. VIF até 5 é aceitável; acima de 5 (ou 10) indica redundância — considere remover ou combinar variáveis correlacionadas.
Referência. MARQUARDT, D. W. Technometrics, v. 12, 1970; O'BRIEN, R. M. Quality & Quantity, v. 41, 2007.
Alavancagem (leverage)
hi = diag(X(XTX)−1XT) corte 2(k+1)/n
Conceito. Mede o quão distante uma amostra está do centro da nuvem das variáveis explicativas. Amostras de alta alavancagem têm potencial de 'puxar' o ajuste para si. É insumo da distância de Cook e da identificação de pontos externos (item 9.1.14).
onde: X = matriz das variáveis; k = nº de variáveis; n = amostras.
Como interpretar. Valores acima de 2(k+1)/n indicam amostras com posição extrema nas variáveis; avalie-as junto com a distância de Cook.
Referência. BELSLEY, KUH & WELSCH. Regression Diagnostics, Wiley, 1980 (doi.org/10.1002/0471725153).
Pontos influentes — Distância de Cook
Di = (ei2/(k·s2))(hi/(1−hi)2) corte 4/(n−k−1)
Conceito. Mede o impacto da exclusão de cada amostra sobre TODOS os coeficientes do modelo, combinando resíduo e alavancagem. Pontos acima do corte são candidatos a revisão/exclusão, pois podem distorcer a avaliação. O sistema permite excluí-los individualmente e recalcular.
onde: eᵢ = resíduo; hᵢ = alavancagem; s² = variância residual; k = variáveis.
Como interpretar. Acima de 4/(n−k−1) a amostra é influente. Verifique se é um dado legítimo; se for erro/atípico, exclua e recalcule.
Referência. COOK, R. D. Technometrics, v. 19, 1977 (doi.org/10.1080/00401706.1977.10489493).
Outliers multivariados — Distância de Mahalanobis
D2i = (xi−μ)TΣ−1(xi−μ) ~ χ2(k)
Conceito. Identifica amostras atípicas considerando a correlação entre as variáveis (diferente da análise variável a variável). Mede a distância de cada amostra ao centro multivariado, ponderada pela covariância. Outlier quando p(χ²) < 0,001.
onde: xᵢ = vetor de atributos; μ = vetor de médias; Σ = matriz de covariâncias.
Como interpretar. D² grande (p(χ²) < 0,001) indica amostra atípica no conjunto das variáveis — candidata a revisão.
Referência. MAHALANOBIS, P. C. Proc. Nat. Inst. Sci. India, v. 2, 1936.
Gráfico Quantil-Quantil (QQ-Plot)
(Φ−1(pi) , e*(i))
Conceito. Diagnóstico visual de normalidade: confronta os quantis teóricos da distribuição normal com os quantis amostrais dos resíduos. Quando os pontos se alinham sobre a reta, há aderência à normal. Complementa os testes de Jarque-Bera e Shapiro-Wilk.
onde: Φ⁻¹ = inversa da normal padrão; pᵢ = posição de plotagem; e*₍ᵢ₎ = resíduos padronizados ordenados.
Como interpretar. Pontos sobre a reta = resíduos normais. Curvaturas nas pontas indicam caudas pesadas/assimetria.
Referência. WILK, M. B.; GNANADESIKAN, R. Biometrika, v. 55, 1968 (doi.org/10.1093/biomet/55.1.1).
Campo de Arbítrio (NBR 14.653-1, item 3.8)
CA = ŷ ± 0,15·ŷ
Conceito. É o intervalo de ±15% em torno da estimativa de tendência central dentro do qual o perito pode arbitrar, de forma justificada, o valor final — por exemplo, para incorporar fatores não captados pelo modelo. Tem natureza técnica/normativa, distinta do intervalo de confiança estatístico.
onde: ŷ = estimativa de tendência central.
Como interpretar. O valor final arbitrado deve ficar dentro de ±15% do central, sempre com justificativa técnica. Não substitui o intervalo de confiança.
Referência. ABNT NBR 14.653-1:2019, item 3.8.
Funções de transformação
x ; ln(x) ; x2 ; √x ; 1/x ; 1/√x ; 1/x2 ; dummy∈{0,1}
Conceito. Transformações linearizam relações não-lineares entre os atributos e o valor, melhorando o ajuste e o atendimento aos pressupostos. Ex.: o log capta retornos decrescentes da área; a inversa modela efeitos que saturam; a dummy representa atributos qualitativos (sim/não). O motor testa as combinações e seleciona a de melhor desempenho (AIC).
Como interpretar. Escolha a transformação que melhora o ajuste e os pressupostos; o sistema sugere a de melhor AIC. Lembre que log/inversa mudam a interpretação do coeficiente.
Referência. DANTAS, R. A. (2012); ABNT NBR 14.653-2:2011 (Anexo A).
Valor unitário e coeficiente de oferta
VU = Vtotal/Área Voferta = Vanúncio·Cof (Cof≈0,90)
Conceito. O valor unitário homogeneíza imóveis de tamanhos diferentes (R$/m² ou R$/ha). O coeficiente (ou fonte) de oferta ajusta preços de anúncio aos prováveis preços de transação, descontando a margem de negociação típica do mercado.
Como interpretar. Compare imóveis pelo VU (R$/m² ou R$/ha). Aplique o coeficiente de oferta apenas sobre dados de anúncio, não sobre transações efetivadas.
Referência. ABNT NBR 14.653-2:2011; DANTAS, R. A. (2012).
11.4. Método do Custo / Evolutivo
Custo de reprodução
Cn = CUB × A × (1 + BDI) + custos extras
Conceito. Estima quanto custaria reproduzir a edificação nova, hoje. Parte do Custo Unitário Básico (CUB) por padrão construtivo, acrescido do BDI (benefícios e despesas indiretas) e de custos não cobertos pelo CUB (fundações especiais, projetos, ligações etc.).
onde: CUB = custo unitário básico (R$/m²); A = área equivalente; BDI = % de despesas indiretas.
Como interpretar. É o ponto de partida (edificação nova). Confira se o padrão construtivo e o BDI adotados condizem com a obra real.
Referência. ABNT NBR 12.721; ABNT NBR 14.653-2:2011 (método da quantificação de custo).
Depreciação física — Ross-Heidecke
φ = ½[(i/n)+(i/n)2] d = φ + C(1−φ)
Conceito. Quantifica a perda de valor da edificação pelo uso e idade. O termo de Ross (φ) combina depreciação linear e parabólica em função da relação idade/vida útil; o coeficiente de Heidecke (C) acrescenta o efeito do estado de conservação. É o método de depreciação mais aceito na engenharia de avaliações.
onde: i = idade aparente; n = vida útil; C = coeficiente de Heidecke (estado de conservação).
Como interpretar. d cresce com a idade e com a piora da conservação (0 = novo; próximo de 1 = totalmente depreciado). Confira a coerência entre idade aparente e estado.
Referência. ROSS; HEIDECKE; FIKER, J. (manuais de avaliação); IBAPE — normas de depreciação.
Métodos alternativos de depreciação
Linear: i/n Ross: ½[(i/n)+(i/n)2] Kuentzle: (i/n)2
Conceito. Alternativas ao Ross-Heidecke, conforme o perfil de perda de valor do bem: a linear assume desgaste uniforme; a parabólica (Kuentzle) concentra a depreciação no fim da vida útil; a de Ross é intermediária. A escolha deve ser justificada.
onde: i = idade aparente; n = vida útil.
Como interpretar. Use a curva que melhor representa o desgaste do bem; a parabólica deprecia mais ao fim da vida útil, a linear de modo uniforme.
Referência. KUENTZLE; ROSS; FIKER, J., Avaliação de Imóveis Urbanos.
Valor da benfeitoria depreciada
Vb = Cn · [1 − d(1 − Vr)]
Conceito. Aplica a depreciação ao custo de reprodução, preservando o valor residual (parcela recuperável mesmo ao fim da vida útil). É o valor atual da construção, que será somado ao terreno no método evolutivo.
onde: Cn = custo de reprodução; d = depreciação; Vr = valor residual (fração).
Como interpretar. É o valor atual da construção. Mesmo muito antiga, não cai abaixo do valor residual (Vr).
Referência. ABNT NBR 14.653-2:2011; FIKER, J.
Método Evolutivo
V = (Vterreno + Vb) · FC
Conceito. Compõe o valor total do imóvel somando o terreno e a benfeitoria depreciada, ajustados por um fator de comercialização que reflete a relação entre custo e mercado da região. Indicado quando não há mercado direto para o imóvel como um todo.
onde: Vterreno = valor do terreno; Vb = benfeitoria depreciada; FC = fator de comercialização.
Como interpretar. Some terreno + benfeitoria e ajuste pelo FC. FC < 1 indica mercado abaixo do custo; FC > 1, acima.
Referência. ABNT NBR 14.653-2:2011 (método evolutivo).
11.5. Servidão Administrativa de Passagem
Indenização total
I = Ifaixa + Itorres + Idanos
Conceito. Mede a perda econômica imposta pela servidão. Decompõe-se na faixa de servidão (uso restrito), nas bases das torres (perda total de uso) e nos danos emergentes (benfeitorias/culturas e desvalorização do remanescente). Não há transferência de domínio.
Como interpretar. É a soma das três parcelas. Cada uma deve estar justificada e demonstrada na memória de cálculo.
Referência. FIKER, J.; IBAPE; ABNT NBR 14.653-1/2/3; Decreto Federal 35.851/1954.
Indenização da faixa de servidão
Ifaixa = VTN × Afaixa × CS
Conceito. Valora a faixa pela fração do valor da terra nua perdida em razão das restrições, dada pelo Coeficiente de Servidão. É a parcela principal da indenização.
onde: VTN = valor da terra nua; A_faixa = área gravada; CS = coeficiente de servidão.
Como interpretar. Cresce com VTN, área e CS. É, em geral, a maior parcela; confira o CS adotado.
Referência. FIKER, J.; NORMA IBAPE-SC (2024); ABNT NBR 14.653-3:2019.
Indenização das torres (métodos genéricos)
Itorres = VTN × Atorres × Ft
Conceito. Indeniza a área ocupada pelas bases das torres, onde a perda de uso é total (Ft ≈ 1,00). No método IBAPE-SC, as torres entram no fator LcTr do CS e NÃO são contabilizadas em separado, evitando dupla contagem.
onde: A_torres = área das bases; Ft = fator de domínio (≈1).
Como interpretar. No método IBAPE não preencha esta parcela (as torres já estão no LcTr) para evitar dupla contagem.
Referência. IBAPE; FIKER, J.
Danos emergentes
Idanos = benfeitorias + culturas + (VTN × Arem × d%)
Conceito. Compreende benfeitorias e culturas eliminadas (estas pelo método da renda, ciclo corrente) e a desvalorização da área remanescente — situação excepcional que exige comprovação técnica e não pode ser arbitrada por percentuais.
onde: A_rem = área remanescente afetada; d% = percentual de desvalorização.
Como interpretar. Some apenas o que for comprovado. A desvalorização do remanescente é excepcional — sem prova objetiva, deixe zerada.
Referência. NORMA IBAPE-SC (2024), item 4.4; ABNT NBR 14.653-3:2019 (10.13).
Coeficiente de Servidão — somatório de fatores (IBAPE-SC)
CS = (R + Dec + Pos + Pcpr + LcTr) / 100
Conceito. Quantifica os 'incômodos e restrições' (de difícil mensuração direta) por meio da soma de fatores associados às características da linha e ao atingimento do imóvel. Reproduz a planilha oficial CS-IBAPE (ex.: 0,4292). É o método recomendado para imóveis rurais.
onde: R = riscos/incômodos; Dec = destinação econômica; Pos = posição da linha; Pcpr = comprometimento; LcTr = locação das torres.
Como interpretar. CS varia tipicamente de ~0,1 a ~0,8 (teto prático 1,10). Quanto maiores as restrições, maior o CS; confira a soma dos cinco fatores.
Referência. NORMA TÉCNICA IBAPE-SC — Servidões de LT em imóveis rurais, 26/01/2024.
Destinação econômica (Dec)
Dec = Σ(%i·pesoi) / Σ%i
Conceito. Pondera os diferentes usos do solo presentes na faixa (reflorestamento, fruticultura, pastagem etc.), cada um com um peso normativo, pela proporção que ocupam. Reflete que usos mais nobres sofrem maior restrição.
onde: %ᵢ = participação do uso i; pesoᵢ = peso normativo do uso i.
Como interpretar. Usos mais nobres elevam o Dec. A soma dos percentuais deve fechar 100% da faixa.
Referência. NORMA IBAPE-SC (2024), tabela de destinação econômica.
Percentual de comprometimento (Pcpr)
comprometimento% = (Afaixa/Aimóvel)×100
Conceito. Relaciona a área gravada pela servidão à área total do imóvel; quanto maior a fração comprometida, maior o peso atribuído (tabela de faixas). Com múltiplas travessias, considera a soma de todas as faixas.
onde: A_faixa = área(s) de servidão; A_imóvel = área total.
Como interpretar. Quanto maior a fração do imóvel sob servidão, maior o peso. Com várias linhas, some todas as faixas.
Referência. NORMA IBAPE-SC (2024); ARANTES, C. A. (definição de % de comprometimento de área).
Locação das torres (LcTr)
LcTr = Σ ni·(índicei/AFSha)·100 (máx. 15)
Conceito. Acrescenta ao CS o efeito da presença e do tipo das estruturas (estaiada, autoportante, poste) em relação à área da faixa. Cada tipo tem um índice próprio; o resultado é limitado a 15.
onde: nᵢ = nº de torres do tipo i; índices: estaiada 0,18 / autoportante 0,0121 / poste 0,000314; AFS = área da faixa (ha).
Como interpretar. Mais torres e do tipo estaiada elevam o LcTr; o valor é limitado a 15. Faixas grandes (AFS alto) reduzem o LcTr.
Referência. NORMA IBAPE-SC (2024) — planilha CS-IBAPE.
CS — método por fatores (genérico)
Ks = Σ(pesoi·graui) / Σpesoi (grau∈[0,1])
Conceito. Alternativa para casos não cobertos pela tabela rural: compõe o Ks como média ponderada de graus de restrição (uso do solo, periculosidade, estética, perpetuidade etc.), atribuídos pelo avaliador.
onde: pesoᵢ = peso do fator; grauᵢ = grau de restrição (0 a 1).
Como interpretar. Ks entre 0 e 1: 0 = sem restrição, 1 = restrição total. Cada grau reflete a severidade percebida do fator.
Referência. FIKER, J.; IBAPE/SP — normas de avaliação de servidões.
CS — método analítico (antes/depois)
Ks = (Vantes − Vdepois) / Vantes
Conceito. Mede diretamente a perda de valor comparando o imóvel antes e depois da imposição da servidão (percentual de comprometimento de valor). Recomendado quando há elementos de mercado para estimar ambos os valores.
onde: V_antes / V_depois = valor do imóvel antes e depois da servidão.
Como interpretar. Ks = perda percentual de valor. Exige boa estimativa dos valores antes e depois; valores negativos não fazem sentido (limite em 0).
Referência. ARANTES, C. A.; ABNT NBR 14.653.
Área da faixa e conversão de unidade
Afaixa = largura × comprimento Aha = Am²/10.000
Conceito. A largura vem da norma da concessionária em função da tensão (ex.: 138 kV → 60 m em área rural pouco densa). A conversão para hectares é necessária quando o VTN é expresso em R$/ha (imóvel rural).
onde: 1 ha = 10.000 m².
Como interpretar. Confira a unidade: VTN em R$/ha exige área em ha (divida m² por 10.000). Erro de unidade altera a indenização em 10.000×.
Referência. EQUATORIAL ENERGIA — NT.041.EQTL (Tabelas 1A/1B), 30/08/2022; ABNT NBR 5422.
11.6. VTN de referência e geoprocessamento
VTN por composição de tipologias (INCRA)
VTN = Σ(%i·VTNi)/100 (Σ%i=100)
Conceito. Quando a faixa atinge diferentes tipologias de terra (agrícola, vegetação nativa etc.), o VTN aplicado é a soma dos percentuais afetados multiplicados pelo VTN de cada tipologia. Os VTN de referência vêm do Atlas do INCRA por Mercado Regional de Terras (MRT).
onde: %ᵢ = fração da faixa na tipologia i; VTNᵢ = VTN de referência da tipologia i.
Como interpretar. O VTN final reflete a mistura de usos da faixa. Garanta que os percentuais somem 100% (a célula fica vermelha se não).
Referência. INCRA. Atlas do Mercado de Terras 2025 (MRT).
Valor total do imóvel
Vtotal = VTN × Atotal
Conceito. Estima o valor da terra nua do imóvel inteiro, base para análises de comprometimento e conferência da indenização.
onde: A_total = área total do imóvel.
Como interpretar. Serve de referência e conferência; não confunda com o valor de mercado por comparação.
Referência. ABNT NBR 14.653-3:2019.
Distância entre coordenadas — Haversine (POI)
d = 2R·arcsen√(sen2(Δφ/2)+cosφ1cosφ2sen2(Δλ/2))
Conceito. Calcula a distância sobre a superfície terrestre entre o imóvel e cada Ponto de Influência, a partir de latitude/longitude. Alimenta as variáveis dist_poi_N do MRLM quando não há coordenadas UTM.
onde: R ≈ 6.371 km; φ = latitude; λ = longitude (radianos); Δ = diferença.
Como interpretar. Resultado em km/m sobre a esfera; adequado para qualquer distância. Use quando faltam coordenadas UTM.
Referência. SINNOTT, R. W. Virtues of the Haversine, Sky & Telescope, 1984.
Distância euclidiana em UTM
d = √((x2−x1)2+(y2−y1)2)
Conceito. Distância plana entre duas coordenadas UTM (em metros), usada para as variáveis de distância quando o avaliando e o ponto possuem UTM. É exata para curtas distâncias dentro de um mesmo fuso.
onde: (x,y) = coordenadas UTM em metros.
Como interpretar. Resultado em metros; precisa dentro do mesmo fuso UTM. Para pontos em fusos diferentes, prefira a Haversine.
Referência. Geometria euclidiana; projeção UTM (NBR 14.166).